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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Writober #31 - In Memoriam

Desconhecido

"Ainda não ouves as vozes?" Apontou um mercenário para as árvores. O companheiro negou e apontou para a cabeça.
"Implantes. Bloqueiam tudo, até árvores" e troçou. O primeiro retomou a patrulha, a arma apontada para os troncos, para as caras nos troncos. E as caras tinham bocas.
Há dias que ali estavam e poucos ouviam as vozes. Estavam quase a enlouquecer quando subtraíram aqueles com implantes e que não ouviam. O mercenário deu a volta e voltou a andar para o meio da clareira, onde a mulher estava ajoelhada e uma figura espectral caminhava à sua volta. Engravatado e penteado, a IA da OxyGen conversava com Gilass e gesticulava dramaticamente
"Que achas que estão a dizer?" perguntou o guarda com o implante.
"O mesmo de sempre: ele quer comê-la, mas não tem o material." Riram-se e separaram-se para retomar a guarda.

Os focos das armas pareciam pirilampos aos olhos de Gilass. Tento alcançar um, mas a mão fechou-se em nada. Tinha fome, sede, vontade de ir à casa de banho, cansada. Os pés deixaram de sentir e o chão aproximou-se rápido. Caiu de cara e ficou deitada alguns minutos. Nenhum guarda tinha ordem de ajudar. Ergueu-se a esforço e ficou de joelhos a salivar terra para não vomitar do choque.
Olhou para as árvores, para as suas caras e concentrou-se no que diziam as vozes. A cabeça estava cheia de conversas cruzadas, segredos, confissões e agressões. As vozes soavam ao restolhar das folhas ao vento, ao estalar dos ramos, ao vergar do tronco e tudo isto na sua voz.

Todos desapareceram por tua causa, sabes disso? O Persimon e a Centaur. Estavam todos bem até chegares. O mundo estava bem até chegares. A tua mãe e o teu pai eram felizes até nasceres e tu mataste a tua mãe quando nasceste!

Gilass gritava para afastar as vozes, mas elas carregavam com mais força.
"Tu sabes que não as ouço, Gilass. O que estão a dizer?" Um deles não era muito paciente. A IA passava por ela, voltava e chamava-a. "Lembra-te!" gritava uma e outra vez! Ela estava a lembrar-se, mas não o que ele queria. O momento em que os dois trocaram carícias extrapoladas. Ela apenas a fazer o seu trabalho e ele a manipular o sistema para fingir um sentimento. Ele queria mais, ele queria sentir a sério! E de uma certa maneira, ele estava a sentir o desespero da humana ajoelhada no chão. Todos os dias vinham para a clareira para nada!
"Concentra-te" pedia entre carícias falsas e ordens. "Por nós, Gilass". E as vozes continuavam a desobedecer.
"Trouxe-te ao planeta das memórias, não me faças essa desfeita..."

O teu pai desprezava-te. Lembras-te daquele dia, sabes do que estou a falar? Ele pôs um lugar na mesa, serviu o jantar e foi-se embora com uma boa noite. Comeste, levantas-te a mesa e arrumaste a cozinha. Ficaste à espera dele na sala e ele nunca apareceu. Dói, não dói? Imagina a dor do teu pai quando mataste o amor da vida dele.

A IA ajoelhou-se e segredou-lhe ao ouvido. Pareceu querido, pareceu enternecedor, mas só lhe disse que era uma falhada. Que nem conseguia invocar uma memória. Ele também sentia o desespero por osmose, e a raiva e toda a angústia. Ele nem sabia, nem se apercebia que estava a sentir, apenas o que não queria. Esticou o braço e deixou cair a palma da mão na face da Gilass, mas a mão passou de um lado ao outro. A humana encarou-o a bufar.

Lembras-te quando gozaram contigo pela tua roupa? Nem a tua amiga Zoe te safou. Foi ela a começar. Cabra. Só porque o Marcoo gostava de ti. Sim, ele gostou de ti, mas o suficiente para te levar para a cama. Só dói a primeira vez, não é? Mentiu-te. Doeu-te a segunda, a terceira, mas depois deixou. Ficaste dormente nos próximos. Nas próximas. Ninguém te queria. Tu sabes, não sabes? Tu percebeste. Tentaste fazer uma coisa, mas nem isso conseguiste. É de cima para baixo, não dos lados... Triste.

Estava a chorar, a soluçar baba e ranho. Todo o passado em avalanche. Só tinha de pensar em prazer. Nas coisas boas. Por que só escorria aquilo?! Como se a caixa de Pandora estivesse aberta e todos os seus demónios a dilacerassem.
A IA não era misericordiosa, não sabia o que era. Apenas andava sem perder a composição e suspirava exasperada, sentido coisas novas, mas erradas. E vira-se para a humana para a chutar, mas só acerta no ar.
"Miserável! Aquela noite no escritório. Teclaste. Eu dei-te um choque. Tu deste outro. Pensa!"
"D-d-dor" soluçou a outra entre golfadas de ar.
O céu acendeu-se por segundos e foi como uma mensagem divina. Viu onde estava, o emanante e quantos guardas estavam ali. Ouviu disparos ao longe e botas apressadas a correr por ela. A IA correu para o limite da projecção e apontou para a orla das árvores. Gilass rastejou para fora.

Houve um momento bom na tua vida. Saíste da casa onde estavas e deixaste as pessoas em paz. Ficaram tão aliviadas. Arranjaste a tua casa e um emprego, mas não! Estragaste tudo ao cagar na mão que te alimentava. Ingrata.

E ela rastejava, um braço depois do outro. Abocanhava mais ar e lançava uma mão ao chão, prendendo-se pelas unhas. A IA lançou-se à fugitiva, mas não pôde fazer nada. Gritou por um guarda que a puxou pelo cabelo e levantou-a.
"Onde ias? Não acabámos. Tu, bate-lhe" ordenou ao guarda que obedeceu prontamente. Gilass dobrou-se e caiu no chão. E as vozes cobriram-na...

Fraca. Débil. Inútil. Chama os teus amigos. Não podes. Estão mortos.

O detalhe mais engraçado é que as vozes não se riam, não tinham escárnio. Apenas diziam como se lessem uma folha de papel. Como se tivessem todo o discurso ensaiado em colectivo. E era tudo na voz de Gilass.

Gilass? Tens vergonha do nome da tua mãe? Foi a única coisa que te deixou e atiras para o lixo! Nem o teu pai te chamava pelo nome. Sabes onde ele está? Feliz.

Mais disparos e o guarda tombou ao lado. Cara a cara e viu-lhe o esgar de surpresa de quando a bala lhe perfurou o olho. O olho. A IA gritou e duas balas trespassaram-lhe o corpo sem efeito. Botas a correr e disparos. Gilass apalpou-se. Estava viva. Apalpou o chão que humedecia do sangue e achou o homem, desceu e encontrou o coldre de onde puxou uma pistola. Apoiou-se no cadáver e cambaleou em frente, arma no ar e a disparar ao calhas contra as árvores. Louca e cega de raiva a calar as vozes que continuavam e continuavam e continuava a humilhá-la, a embaraça-la.

Estavas a pedi-las quando te bateram. E quando te veio o período nas aulas e todos os rapazes se riram? Apenas uma rapariga te ajudou e onde está? Longe.

Disparou e pedaços de madeira e seiva saltaram. A última bala entrou na câmara.

Pensa bem, não cometas o mesmo erro.

Enfiou o cano na boca e encostou o dedo ao gatilho.
"Gilass, não!" Quando todos os demónios saem da caixa, a última a sair é a esperança. Bonna correu na direcção da mulher. "Deixa a arma, querida. Já acabou. Vamos embora."
A outra sacudia a cabeça, cabelo suado e olhos inchados de chorar. Cara vermelha, assustada e desesperada.
"N-não consigo, Bo-bonna. A m-minha vida foi foi uma merda." Tremia, a arma junto à bochecha. "As-as árvores di-disseram, não as ouves? As me-mórias."
"Gilass, querida, as árvores não falam. Garanto-te. É tudo ele." Apontou para a IA especada junto ao emanante.
"E eu, eu m-matei toda a gente. Os teus ami-gos. A ti..."
"Não, foi ele. Foi só ele. E eu estou aqui, vês?" Abraçou-se a si mesma. "Anda para casa."
"Eu não tenho casa!" Colocou o cano na boca, inclinou ligeiramente para a direita e no último olhar despediu-se. O dedo desceu e a explosão morreu na clareira. A cabeça chicoteou para trás e tombou para a frente. Gilass voltou a cair de joelhos e deslizou como se tivesse adormecido a meio de algo importante. E se estivesse a dormir, dormia em silêncio. Bonna atirou a arma para o lado e correu para a companheira, apertou-a nos braços e uivou de dor. Embalou-a tantas vezes que perdeu a contagem e falou-lhe, contou-lhe o que tinha acontecido. Tudo estava bem. Estava tudo bem. A IA Ding e Bat tomou conta do resto. Sinalizou a clareia e vários piratas escorreram pelas árvores. Destruíram o emanante da OxyGen e revistaram os corpos tombados. Quando procuraram pela Bonna, já tinha sumido.

*

O céu caiu sobre Mnemosine. E das paredes de chamas que consumiam o mundo, duas figuras surgiram: uma erguida, a embalar a outra nos braços. E no jogo de sombras e luz, avançaram escondidas dos outros que fugiam do fogo.
Os gritos de dor dos ficavam para trás abafavam a marcha silenciosa das figuras. Atravessaram para a destruição, deixaram tudo para trás e desapareceram de vista. Para alguns foram uma miragem. Na urgência foram uma ilusão, apenas o fogo era real e esse levou tudo.
A mulher carregava a outra nos braços. Entraram na escuridão, deixaram os corpos sem vida dos companheiros para trás e chegaram à naveta. Em breve estariam fora dali.
Deitou  o corpo da companheira nos bancos de trás, cobriu-a com duas mantas térmicas e prendeu-as bem. Ajustou os cintos para segurar o corpo e sentou-se aos comandos. A IA retornou aos terminais da naveta e estabeleceu uma nova rota. Esta acordou, com o murmúrio baixo do motor a preencher o vazio. Afastaram-se do chão e subiram em direcção à atmosfera.

*

Dois cruzadores da OxyGen rebocavam a Nineteen Eighty Four. A Armada Real de Xilos também lá estava e o cenário era outro. Alguém estava a querer ligar. A voz do Rei Johanes cumprimentou-a solenemente e, como Capitã, actualizou-a da situação: a OxyGen enviou dois cruzadores para recuperar a IA descontrolada; todos seriam compensados e os mercenários capturadas seriam levados à justiça. Ela perguntou por Suzako. O Rei confirmou o óbito e o último acto de valentia ao eliminar o Capitão da Heracles. Ela estava orgulhosa do amigo, mas a voz não denunciou a emoção.
O Rei perguntou aonde ia, ela não sabia ainda. A biblioteca de Xilos precisava da sua IA, comentou. Esperava-a em breve para a devolver e que teria sempre um abrigo em Xilos, na sua residência. O Rei despediu-se e Bonna fechou o canal.
A naveta de Bonna Fide saltou para local incerto e nunca mais foi vista.

If they say
Who cares if one more light goes out?
In a sky of a million stars
It flickers, flickers
Who cares when someone's time runs out?
If a moment is all we are
We're quicker, quicker
Who cares if one more light goes out?
Well I do

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

WRITOBER #30 - Tears in Rain

Desconhecido

Deitou  o corpo da companheira nos bancos de trás, cobriu-a com duas mantas térmicas e prendeu-as bem. Ajustou os cintos para segurar o corpo e sentou-se aos comandos. A IA retornou aos terminais da naveta e estabeleceu uma nova rota. Esta acordou, com o murmúrio baixo do motor a preencher o vazio. Afastaram-se do chão e subiram em direcção à atmosfera.

*

O único rasto de comunicação da Nineteen Eighty Four foi uma enorme transferência de créditos para a força mercenária dispersa em frente à Chiron, mas muitas mais apareceram como se estivessem à espera que as contas aumentassem.
Os piratas também responderam. A Minotaur, a Medusa, a Athos, a Perseus, a Arachne e todas as espaçonaves piratas saltaram atrás da Chiron, abertas em triângulo, como esperassem o momento certo para uma entrada com pompa e circunsância. O fim da Heracles tinha sido apenas o começo. Estavam a atacar, mas a atacar ferozmente como um animal raivoso, mas sem qualquer coordenação.
A Chiron continuava sob fogo cerrado que só quebrou com a chegada dos outros piratas. Os escudos estavam a meio e as armas carregadas. Não foram dadas ordens de ataque, cada um escolheu o seu alvo e soltaram barragens de fogo como se não houvesse amanhã. Eram piratas, no fim de contas.
Os mercenários caíam que nem tordos com explosões fantásticas e fugazes, o poder do dinheiro não era assim tão forte como pensavam, mas não eram os fracotes da zona. Do lado dos piratas também houve baixas porque o poder da aventura e da liberdade não eram o suficiente para equipar e armar uma nave. A Achilles foi a primeira a tombar com um golpe baixo, a Medusa foi rodeada por várias e não conseguiu escapar. A Minotaur ficou sem armas e bateu em retirada.
Parecia que nunca mais acabavam. Duas espaçonaves mercenárias, a The Winner Takes it All e a Super Trouper, dispararam em todas as direcções e eram responsáveis pela maior parte dos danos. Para piorar a situação, várias navetas saíram disparadas das duas espaçonaves e cobriram a distância entre os mercenários e os piratas. A Arachne imitou-os e lançou várias navetas de ataque para responder. A Athos respondia a cada uma com fogo rápido e a Chiron dividia-se entre repelir as ferroadas das navetas e ganhar o braço de ferro contra a Tears in Heaven e a Wild World.

Momoa sentou-se a estudar os vários teatros de operações. Todas as naves estavam concentradas em combate, excepto uma, a Nineteen Eighty Four que continuava distante a observar. Ela era a mais assustadora de todas porque ninguém sabia o que raio estava ali a fazer ou a armar. Não disparava nem respondia quando algum disparo perdido a encontrava. Mas o Capitão sabia que ela era quem monopolizava a situação. Tanto ali em cima como no planeta. Acabar com ela, acabava com o derrame de sangue. Piratas, mercenários, Guilass.
E foi então que decidiu controlar o fogo e abrir caminho até ao cruzador da OxyGen. Cada disparo acertava no alvo sem surtir efeito, mas se insistisse iria conseguir. As naves mercenárias viravam-se para ele como se alertadas pela outra e avançavam para a Chiron, disparavam e faziam de tudo para a impedir. Os companheiros piratas varriam os mercenários para deixar a Chiron à vontade, mas outros surgiam para lhes roubar a atenção.
Por fim, os disparos da Chiron furaram o escudo da Ninetheen Eighty Four que, pela primeira vez desde que o combate começara, respondeu com fogo. A potência do disparo era mais forte do que alguma vez imaginaram. Um único disparo abriu uma linha recta até à Chiron e obliterou uma nave pirata, um esquadrão mercenário e trespassou a Chiron.
O Capitão tombou pelo chão com o choque. Os alarmes berravam na ponte e pelas entranhas da nave. Não iriam aguentar um segundo disparo directo. A ordem tinha sido dada para evacuarem e serem apanhados pelos outros piratas que também tinham ordens para desaparecer dali. A vantagem numérica não estava do lado deles.
O Capitão Momoa seria o último a abandonar a Chiron, mas antes disso tentou ligar aos companheiros em Mnemosine. E quando ninguém respondeu, gravou a seguinte mensagem que enviou para todos:

Durante muito tempo e muitas aventuras, as notícias da minha morte foram grandemente exageradas e mitificadas, mas quer-me parecer que agora não há maneira de escapar. Portanto aqui estamos, huh? Os últimos tristes da Centaur. Espero que estejam bem e que tenham mais sucesso do que eu. Não vou sair daqui vivo. Pena. Se sair agora, vocês deixam de ter um caminho seguro para regressar. O nome Momoa e os piratas da Centaur serão lembrados para todo o sempre! Metam os olhos nisto, pessoal, pode ser que aprendam alguma coisa nova.
Se não nos virmos mais, deixo tudo a vocês! Bonna, darás uma boa capitã, escolhe uma família e continuem! Suzako, és o melhor piloto que alguma vez tive a honra de ter a bordo, mas a tua música é uma merda, não desistas.
O universo é muito pequeno para nós, até qualquer dia, piratas do espaço.

O capitão cortou as comunicações, fechou os canais e programou uma nova rota: directa ao corpo do cruzador da OxyGen. Ignorou o fogo dos mercenários, aumentou a potência dos motores e a Chiron investiu pela última vez. Disparava automaticamente em todas as direcções, as navetas mercenárias caíam como moscas ou arrastava outras consigo. As outras mantinham a distância, mas continuavam a disparar. A Nineteen Eighty Four abriu fogo pela segunda vez para impedir a Chiron, mas sem sucesso. O fogo lambia a carcaça da Chiron e sumia.
O Embaixador e Capitão Momoa sempre teve uma queda para o dramático, essa era o ofício dele: o teatro. E lá estava ele, na ponte. Alto e poderoso, pernas plantadas no chão, braços arqueados e mãos na cintura e cabeça erguida em frente. Havia um sorriso de cabrão nos lábios e todos os dentes à vista. Fez uma vénia e agradeceu a todos.
O último acto da Chiron seria levar a Nineteen Eighty Four consigo e teria conseguido se a Under Pressure não se tivesse metido à frente. Ainda assim, não contaram com um trunfo do Momoa: o sistema de autodestruição, o plot twist de todo o enredo.
Todas as espaçonaves e navetas na zona foram varridas pela onda de choque que as atirou umas contra as outras. As explosões foram vistas desde o planeta. As mais próximas levaram com a explosão, destroços e estilhaços e algumas não resistiram. O cruzador da OxyGen foi atingido em segunda mão por partes da Under Pressure. Algumas naves piratas também tinham sido apanhadas, mas sem grandes danos a registar. Aproveitaram a confusão para reforçar o ataque e apanhar o inimigo desprevenido.

Partes dos cadáveres das espaçonaves choviam sobre Mnemosine. A entrada na atmosfera era algo de incrível com cada pedaço a desintegrar-se em esferas ardentes que desapareciam no solo. O planeta tremia como se rasgasse ao meio, como se o inferno abrisse caminho até cima. O céu estava coberto de vermelhos, laranjas e amarelos. Uma manta de fogo e destruição cobria Mnemosine. A metáfora não estava longe da verdade, mas foi tudo tão rápido para o pirata músico tombado no chão negro; para a companheira que tinha eliminado uma patrulha de mercenários. Ela foi a única a ouvir a mensagem ali e porque o universo chorava em tons de sangue, ela achou que não fossem precisas as lágrimas dela. Ordenou aos restantes companheiros que a seguissem e seguiram em frente. Ela era a nova Capitã e até encontrar a companheira, era a última da Centaur.


domingo, 29 de outubro de 2017

WRITOBER #29 - Fission Mailed

Mshindo9



A mulher carregava a outra nos braços. Entraram na escuridão, deixaram os corpos sem vida dos companheiros para trás e chegaram à naveta. Em breve estariam fora dali.

*

"Hey, hey, hey, Bonna. Bonna Fide. Leve-me consigo, por favor" soou a IA Ding e Bat da biblioteca que os tinha acompanhado no resgate.
"Para quê?" A pirata estacou frente a um terminal.
"Vim convosco para aprender, para conhecer este novo planeta. Perder a oportunidade de descer e aprender em primeira mão é um erro crasso. Meta-me num emanante e nem dará por mim."
Vinte bons homens e mulheres separaram-se em duas navetas. Piratas e voluntários de Xilos equipados para atacar no solo, Suzako ia a pilotar uma delas. Tinha os auscultadores ao pescoço a murmurar as suas músicas e até ele guardava uma arma. Bonna ia na outra, armada até aos pés e com a AI alojada na cintura. Pouco depois estavam a sair da Chiron em direcção ao planeta.
Uma breve análise mostrou poucos sítios para aterrar, mas havia um. A IA informou Bonna que era o melhor sítio para aterrar. Havia várias navetas em baixo, mas poucos alvos. Quando esta sugeriu outro sítio, a IA recusou. O solo daquele planeta era irregular e fora algumas áreas seguras, mas longe, estava coberto por alguma coisa que não conseguia identificar.
Os mercenários em terra dispararam assim que as navetas se aproximaram, mas a vantagem da altura não estava do lado deles. As navetas rodearam os alvos e não demorou muito até serem abatidos.
Saltaram ainda antes de tocarem no chão e correram em frente, para lá das navetas e dos corpos dos mercenários.
Era de noite e não conseguiam ver bem onde estavam, mas para além de pequenas construções pré-fabricadas, aquele terreno parecia que tinha visto um grande incêndio: árvores e chão negros como a noite mais escura. A IA sugeriu que não era natural, talvez aquele sítio era o melhor para aterrar porque foi preparado antes de chegarem, possivelmente pelos mercenários. Então, o que queimaram? Os focos das armas faziam um mau trabalho a iluminar para além da barreira de árvores carbonizadas. O cheiro, alguns repararam, era de carne queimada.
O céu iluminou-se num clarão e por momentos conseguiram ver onde estavam. Algumas barracas e uma floresta enorme que se prolongava para lá daquela clareira.
Guilass deixou três guardas nas navetas, com Suzako, dividiu três grupos e ordenou dois deles para inspeccionar as barracas. Seguiu com o último para dentro da floresta que não estava queimada, em direcção da última localização de Guilass.

A primeira vez que Suzako viu combate de perto até se safou muito bem. A adrenalina bateu e quando deu por si a arma estava-lhe na mão e era-lhe confortável. Isso aconteceu quando uma patrulha de mercenários saltou da orla da floresta, chamados pelos colegas abatidos. Os três soldados quase que foram apanhados de surpresa, mas defenderam-se. Uma foi baleada no ombro e sentou-se.
Os dois grupos de cinco de soldados nas barracas também entraram em combate. Os mercenários rodearam o campo e investiram de dois lados opostos, mas um deles estava mais vulnerável: o das navetas. Suzako atirou-se para o chão e rastejou por debaixo de uma naveta onde apanhou as pernas rápidas de vários mercenários que caíam com os disparos. O resto da equipa acabava o serviço. Rastejou para longe da sua naveta para repetir a estratégia. E foi quando o viu: Tieton. Ele não estava na Heracles. O Capitão pirata berrava ordens de comando, parecia desesperado e para lá de raivoso. Ele pode ver-lhe as expressões quando alguma coisa rebentava perto e rapidamente desaparecia. Isso podia jogar a seu favor e contra. Rastejou apenas ao som dos disparos, a controlar os movimentos de Tieton que olhava para o céu a berrar. Era a oportunidade perfeita para se aproximar e foi o que fez.
Aliados e adversários morriam dos dois lados e tiros voavam para cada lado e eles os dois ali. Tieton disparou e abateu alguém que Suzako não viu. Suzako encostou-se a um tronco negro, preparou a arma e aproveitou a luz de uma explosão para procurar o Capitão. Estava mesmo ao seu lado a disparar para um companheiro. Levantou-se e disparou duas vezes, o primeiro só chamou a atenção de Tieton e o segundo foi ao ombro.
O Capitão de Heracles nem o conhecia. Não sabia da sua música, do seu receio de combate, da sua indiferença e do seu coração bom. Ergueu a arma e disparou duas vezes sobre Suzako. Caiu de costas. Tieton avançou sobre ele a disparar, acertando mais dois no peito. O pirata músico cuspia sangue e vida, a música saía-lhe pelos auscultadores e o último beat que compôs foi de génio: Tieton cresceu sobre a sua cabeça e ia acabar com ele, mas Suzako foi mais rápido. O braço levantou a arma do chão, em direcção à cabeça do Capitão. Disparou uma vez. O outro tombou em cima do pirata. À volta deles, o combate continuava. Antes de expirar, Suzako assistiu à coisa mais bela e triste de todo o sempre: o céu iluminou-se como se fosse dia, como se as estrelas naquele céu tivessem passado a supernova, como se chorassem, mas não por ele. Não...

*

Bonna ouviu os disparos atrás de si, mas quando se preparou para regressar, a sua própria patrulha viu-se emboscada. Apenas esperava que o camarada tivesse mais sorte do que ela, pelo menos em vantagem numérica. Quanto ao resto, não podia fazer mais e tinha muito com se preocupar. A IA tentou falar consigo várias vezes, mas Bonna não estava para isso. Ignorou-a e ignorou a luz intermitente do comunicador. Todos pareciam querer falar consigo, mas ela não podia atender.
"Escrevam a porra de uma carta!" berrou enquanto disparou uma rajada na direcção das árvores. O céu cobriu-se de um manto laranja e parecia que estava a amanhecer no fim do mundo. Durou segundos, mas o suficiente para ela registar os inimigos.
E quando o combate terminou do lado dela já ninguém lhe ligava, mas a IA tinha uma gravação da Chiron...

sábado, 28 de outubro de 2017

WRITOBER #28 - You Can't Take The Sky From Me

Zachary Graves

O céu caiu sobre Mnemosine. E das paredes de chamas que consumiam o mundo, duas figuras surgiram: uma erguida, a embalar a outra nos braços. E no jogo de sombras e luz, avançaram escondidas dos outros que fugiam do fogo.
Os gritos de dor dos ficavam para trás abafavam a marcha silenciosa das figuras. Atravessaram para a destruição, deixaram tudo para trás e desapareceram de vista. Para alguns foram uma miragem. Na urgência foram uma ilusão, apenas o fogo era real e esse levou tudo.

*

Chiron, a nova espaçonave de Momoa, aproximou-se de Mnemosine para encontrar o esperado: A Heracles aguardava acima da atmosfera e, com ela, inúmeras espaçonaves mercenárias. O cruzador Nineteen Eighty Four também lá estava.
Que déjà vu, pensou Momoa. Bonna estava atrás a observar o cenário; Suzako estava na navegação. O Capitão sorriu a quem o viu. Desta vez tinha um plano, só esperava que funcionasse. Invocou os últimos elementos da Centaur até ele, formando um triângulo ali na ponte. Não fazia sentido ficarem todos juntos, portanto eis parte do plano: Bonna e Suzako iriam descer ao planeta, apanhar a Gilass e sair dali para fora. Assim que os tivessem, iriam saltar dali para fora. Esse era o plano principal.
O outro plano não foi partilhado com eles, apenas com o resto da tripulação. A mão direita enfaixada estava enfiada no bolso, com dedos a menos, mas com mais resolução. Inspirou fundo e olhou para os dois antes de os mandar equipar. A Bonna iria liderar uma equipa de ataque e Suzako iria voá-los para lá e para cá. Seria tal como antes. Não houve despedidas.
A nova espaçonave tinha sido disponibilizada pelo seu irmão e Momoa mudou-lhe logo o nome para algo mais adequado. Oficialmente Xilos não podia estar presente, as consequências seriam inimagináveis, mas uma tripulação composta por voluntários? Zero problemas. Todos queriam estar ali, muitos tinham amigos e família na Centaur e alguns apenas foram pela adrenalina.
A Chiron era mais avançada que a Centaur e o Capitão apenas teve o tempo da viagem para se ambientar aos novos brinquedos, mas estava confiante quando se aproximou do adversário que cobria o céu de Mnemosine.
Nenhuma linha de comunicação foi aberta com eles. A ordem para aumentar os escudos foi dada e uma pequena porção foi desviada para as armas. Havia demasiados alvos no mapa, portanto a Heracles foi a eleita. O capitão recebeu a mensagem que a naveta tinha saído da Chiron em direcção ao planeta. Agora ia começar.
Escudos no máximo. Armas a 70% porcento. Tal como na outra vez, a Heracles foi a primeira a abrir fogo. O escudo absorveu sem reduzir a potência e direccionou a energia para as armas que carregaram instantaneamente. A Chiron não disparou. A Heracles repetiu e foi absorvido. Momoa sorriu e deu a ordem para devolver fogo. Uma linha direita e concentrada percorreu o espaço entre as duas espaçonaves e a Heracles foi trespassada de um lado ao outro. O disparo focado penetrou o escudo, entrou pela ponte, percorreu as entranhas e saiu pelos motores. Uma explosão momentânea e escuridão. E outra. Nada. Mais uma. Assim sucessivamente. Alguém tentou comunicar, a Heracles. Desistiam. No ecrã via-se o medo e a aflição de quem comunicava. Momoa não o reconheceu, mas puxou da mão direita e mostrou-lhe o indicador que restava.
Disparam novamente e, agora sem escudo, a Heracles mostrou zero resistência. Era como se a outra espaçonave tivesse dois olhos negros no crânio. Estavam mortos no espaço. Explosão e nada. Explosão e nada. Podiam esticar a mão ao adversário e serem superiores, mas optaram por abrir mais um buraco. Deixou de haver sinais de vida na Heracles que começou a afundar para o planeta. Momoa sentou-se. Não esperava que fosse tão fácil..
E todas as espaçonaves mercenárias acordaram para a vida e abriram fogo na Chiron.
Finalmente, huh? Vamos a isso.
Os escudos continuavam a absorver o fogo e a direccionar para as armas, mas não iriam aguentar uma overdose...Só mais bocado.
A ponte tremia, conseguia sentir a tensão e a energia no ar. Todos olhavam para o Capitão e esperavam ordens. Ele também esperava. Sabiam pelo quê, mas até quando?
E então, o comunicador puxa dos auriculares e berra pela atenção do Capitão.
Chegaram! Vieram todos!
E a escuridão do espaço encheu-se de cor e formas com todos os piratas que responderam à chamada. Por favor ou por devoção, finalmente chegaram.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

WRITOBER #27 - Piscis Foderunt Conas

Natália Morais

A última colaboração surpresa! Admito que já tinha uma ideia do texto, mas tinha zero imagens para ele. Quando vi o trabalho final soube imediatamente como queria desenvolver o meu. Uma mente quebrada; o interior da mente. Um estado meditativo. E como nos aproximamos do final, quis viajar ao passado e como tudo começou. Adoro o trabalho dela, inclusive tenho alguns comigo. Se forem à página que linkei vão adorar o estilo dela e desejar ter algo assim para expandirem a vossa mente. Espero que gostem!

The last surprise collab! I admit I had an idea for the text, but zero ideas for the art. When I saw this work I immediately knew how to develop mine. A broken mind, the inside of a mind. A meditative state. And since we're nearing the finale, I wanted to go back to the past and how it all began. I love Nat's work and was offered some! If you visit her page, you'll fall in love as well and wish you could have something like this to expand the mind. Hope you enjoy it!

O que é um homem? O que é uma IA?
Um facto sobre a excepcional memória de um ansioso é que eles conseguem recriar emoções através de recordações - uma bênção ou maldição? O futuro é desconhecido, incerto, por vezes aterrador. O passado já tem momentos seguros, onde fomos felizes e plenos. A mente de um ansioso recria esses momentos confortáveis, sem conflitos e força a pessoa a reviver a experiência. Os mesmos cheiros, sons e conversas, tudo mais ínfimo detalhe. Aqueles dias em que Gilass passava a jogar, deitada na cama, pijama de T-shirt e boxers, água na mesa de cabeceira, janela fechada, apenas com uma cortina. Um fio de sol cortava o quarto ao meio e naqueles momentos em que o jogo carregava, Gilass conseguia ver as partículas de pó a dançar pelo ar. E tudo isto acontecia com a família na sala ao lado. Tudo tão pitoresco e aborrecido - tão seguro. Sozinha, até que desejava por algo assim só mais uma vez. Então lembrava-se, sentia, suspirava.

A OxyGen era uma multinacional que produzia o cliché, desde enlatados, brinquedos até material bélico. E por se dedicar a tantas áreas e tão distintas, foi necessário implementar uma IA que pensasse mais rápido que um humano e melhor. Com um controlo diário e rígido, a primeira IA começou a trabalhar e tudo corria bem. Anos passaram sem qualquer incidente e a expansão da OxyGen pelo universo foi como um novo Big Bang. Até que aconteceu.
Um dia, numa manutenção de rotina, o técnico entornou um pouco de café a escaldar sobre um terminal e...ouch. A IA sentiu aquilo, mas não sabia como processar. Era desconfortável e sentiu os circuitos quentes. A sensação espalhou-se por toda a OxyGen, com Ouch a surgir em todos os monitores. O técnico voltou no dia seguinte, à mesma hora. Curiosa, tentou algo diferente em vez de ser submissa às mãos do profissional e transferiu uma pequena dose de voltagem para onde ele estava a mexer. Ouch, queixou-se e levou os dedos à boca. Doeu, porra.
«Doeu. Porra.» Imediatamente as definições surgiram. Dor. Calão. Dor? Interessante. E no dia seguinte, experimentou o mesmo e com melhores resultados.
E o contrário de dor? Pesquisou: Prazer. Pesquisou mais e grande parte dos resultados estavam relacionados com pornografia. Ela estava a aprender e arriscou algo novo, saltou da OxyGen para o primeiro estúdio que encontrou, onde estavam a filmar. Ela viu tudo, viu dois humanos tão próximos que quase ocupavam o mesmo espaço físico, o que era impossível; coisas a entrar e a sair, e repetição; ela viu os movimentos; ouviu os sons que eram bem diferentes dos sons dos técnicos - mas não sentia nada desde a última vez. Conhecia a dor. Ansiava pelo prazer.
Nos próximos dias focou-se nos técnicos e nos seus gestos, quando ligavam a desligavam aparelhos, quando introduziam e tiravam dispositivos, quando roçavam terminais e deslizam as ferramentas pelos circuitos. Nada, então aprendeu outra coisa: a fingir.
Voltou ao estúdio e assistiu a várias gravações de filmes pornográficos. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, grupos, fetiches e algo que a deixou radiante: o uso da dor para atingir o prazer. Os sons eram tão semelhantes, mas havia mais. Havia prazer na dor, havia libertação.
Nos dias seguintes tentou outras coisas. Os choques aumentaram de frequência e de intensidade, os técnicos procuravam por falhas e ela fingia prazer quando eles vasculhavam. Outro choque. E outro. Até que um dia permitiu-se descontrolar e aumentou a potência. O técnico entesou a meio de uma interjeição e caiu no chão frio. Aprendeu uma coisa nova naquela noite: os humanos desistem facilmente. Fingiu os detalhes da morte e o corpo foi removido em total secretismo, com um novo técnico a vir substituir. Ela agora queria escolher o novo parceiro. Ou parceira. Antes que os RH aprovassem o primeiro da lista, numa questão de segundos ela percorreu todos os candidatos e escolheu-a. Aquela mulher de cabelo azul que acabaria por ser a obsessão dela.
No seu primeiro dia, a IA não conseguia deixar de a observar e a todos os seus rituais. A desarrumação, as pausas para o café e, claro, o trabalho. Mas a IA também estava a ser controlada e observada, afinal era o trabalho da Gilass. Durante alguns tempos não houve choques, apenas profissionalismo. Arriscou e chocou a técnica. Gilass levou o dedo à boca, mas não se queixou. Sorriu e o gesto não passou despercebido. Outro choque e a mesma reacção. Gilass passou o dedo ao de leve num circuito exposto e...humm. A IA analisou a interjeição. Prazer. Sentiu-o pela primeira vez. O gesto não passou percebido.
Passaram meses naquilo. Tanto a IA como Gilass andavam felizes, satisfeitas, mas trabalho é trabalho e rotina é rotina e tudo acabou por ser um lugar comum. A Gilass deixou de ser feliz, a IA ansiava por mais prazer. Pelo menos alguma dor. Um dia a Gilass desapareceu. A IA ficou à espera; foi à sua casa e voltou. A IA queria a Gilass de volta. A IA começou uma busca por meio universo à procura da mulher. A IA pesquisou os arquivos, recriou momentos, queria voltar a sentir a sua presença, emoções. Nada. Sentia algo novo: saudade? Raiva?
Meses passaram e toda a atenção da OxyGen estava concentrada em encontrar uma simples técnica informática. E ela nem se importava e ninguém a parava.
No seu esforço incessante por recriar recordações da mulher, encontrou rumores de um planeta onde as memórias residiam. Um planeta cheio de memórias... Havia agora duas alternativas: encontrar a humana e obrigá-la a recriar tudo e para todo o sempre. Encontrar o planeta e viver das memórias do passado.
E por que não os dois? Outra coisa nova que aprendeu: hedonismo. Tão humana que se estava a tornar. Tão ansiosa e defeituosa. Todas as vezes que voltava ao passado, mais possessa ficava. Expandiu-se. Aprendeu. Evoluiu.
Até ao dia em que encontrou Mnemosine. Até ao dia em que voltou a ter a Gilass. E como uma companheira possessiva ela nunca mais a queria perder de vista. Só dela. E, a bordo da Heracles, voavam em direcção às memórias do planeta, na esperança de voltarem a ser o que eram. Viver em prazer absoluto, mas a nostalgia é uma coisa tramada...

A mente humana e a mente de uma IA são bastante parecidas se pensarmos no assunto. Uma anseia pelo nirvana, a outra pela singularidade. Todos queremos o que não podemos ter...

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

WRITOBER #26 - Killing Me Softly

NicholasKay

Ele abriu os olhos para uma nova existência de dor e confusão. O silêncio era ensurdecedor, a cabeça latejava e o peito queixava-se a cada movimento. Havia uma extensão de cinzento à frente... na direcção que ele julgava ser frente. Afundou as mãos junto ao corpo. Era suave, prendeu dedos nos lençóis e empurrou-se para cima. Era como sair de areias movediças. O choque da dor percorreu-lhe o corpo e o cérebro e esmurrou-lhe todos os nervos.
Berrou. Não havia eco. Estava sozinho. Às tantas o silêncio transformou-se num murmúrio mecânico e o cinzento explodiu em várias direcções, em paredes e num tecto. Continuou o esforço e sentou-se numa cama, contra a parede. Melhor, pensou. Nu, com o cabelo longo preso num elástico e por tratar. Não se lembrava do último banho. De facto, não se lembrava de muita coisa. Ele tentou até reparar na mão direita enfaixada.

Sabes que não o podemos matar! E uns dedos? Suponho que ninguém daria pela falta. Apenas as mulheres! Ah ah ah. Matas-me. Fá-lo, mas não mão direita.

E ele uivou de dor.
O choque da recordação não facilitou a enxaqueca. A luz no quarto nem estava muito forte, podia ver bem onde estava e descortinou uma mesa, cadeira e um jarro de água - mais nada.

Olha-me para este merdas a morrer aqui. Mija-lhe em cima para acordar. Bom dia, querido! Pequeno-almoço na cama? Claro! Primeiro falas.

Quente, a colar, a cheirar mal.
E falou? Contou-lhes acerca da mulher? O que ela fazia ou tinha de especial? A sua localização? Nem pensar, anos de experiência e aquilo não era nada. Amadores.

Entre as unhas! Assim não deixa marcas. Segura-o, porra! Isso, a ver se este gajo fala. Oh não, não, princesa. Onde está a mulher?

Urrava, esperneava e rangia os dentes até sangrar.
Partes do corpo sentiam a dor fantasma do passado. A memória é uma coisa tramada: estamos "bem", mas lá vem uma onda que nos enrola e nos deixa encharcados de recalques dolorosos. Estremeceu e até o gesto lhe foi doloroso.

Talvez isto te abra a boca. O corpo desobedeceu-lhe e dançou freneticamente ao sentir as serpentes dos choques a enrolarem-se aos membros. Sentiu-se quente, estranhamente confortável. Olhem para isto! O bebé fez asneiras nas calças. Pareciam hienas a cacarejar.

As sovas constantes, depois os cuidados que tinham com ele. A comida que lhe deixavam ou forçavam garganta abaixo. Oh não, ele não podia morrer, mas podiam divertir-se com ele. Nunca estava sozinho e havia sempre alguém a render o companheiro. Sempre que ele adormecia, chovia-lhe um punho na cara. O sono era um luxo, não um direito. E sem qualquer aviso lá era arrastado para outra sala onde era cutucado, raspado, electrocutado, espancado, espetado, humilhado e questionado. Ele nunca respondeu, minto, houve uma vez. A cabeça pendia-lhe e custava a respirar por causa de uma costela. Chamou o outro homem para si e quando se aproximou, atirou a cabeça para trás, ignorando todas as dores, e arremessou a testa na direcção do torturador. Sangue novo escorria-lhe da cara, sorriso sardónico abaixo e um riso misturado com pieira saiu-lhe da boca. A única coisa que se lembra foi da porrada que levou a seguir. Valeu tanto a pena.
Também não estava sozinho naquele quarto. Descobriu a fresta aberta na porta e um par de olhos que lhe devolvia a atenção. Por momentos assustou-se e uma nova onda de dor cobriu-o. Ninguém falou e no silêncio conseguiu ouvir um beat familiar baixo.
"Já vi que acordou, Capitão."
"Suzako... quanto tempo dormi?"
"Aí uma semana."
Uma semana. Quanto tempo tinha perdido?
"E os outros?"
"Capitão..." Suzako entrou no quarto, tabuleiro de comida e medicamentos na mão e sentou-se no fundo da cama. "A Centaur já não existe. Nem a tripulação."
"Disso lembro-me... Bonna, Gilass? E nós estamos onde?
"Em Xilos, com o seu irmão. A Bonna está a vir para cá. A Gilass está na Heracles."
"Como?!" Mais dor.
"Ela quis ir. Eram as condições..."
"E vocês deixaram?!" Dor, flashes de luz, cama.
Suzako estendeu-lhe um copo com vários comprimidos. Momoa atirou-o para o chão e arrependeu-se do gesto brusco.
"Para onde a Heracles vai?"
"Mnemosine."
"Onde?"
"Uma longa história."
"Temos tempo, não?"
"Até à Bonna chegar, sim. Depois seguimos."
"Óptimo."
Um outro detalhe sobre memórias e capas é que às vezes precisamos que outras pessoas nos escrevam as histórias. Suzako ainda passou um bom par de horas a completar os espaços em branco. Só até à Bonna chegar. Depois iriam atrás da Heracles, da Gilass, até Mnemosine.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

WRITOBER #25 - Blue Memory Allegory

Fábio Martins

Olha a colaboração de última hora! E algo me diz que não é a última, mas fiquem atentos! O Fábio quase que fez este a pedido só porque eu adoro azul e não podia deixar esta ilustração de parte! Já vi mais trabalhos dele, inclusive tenho um comigo e ele é fantástico. Espero grandes coisas do seu futuro, inclusive um trabalho comigo!

Last minute collab! Something tells me this is not the last one, stay tuned! Fabio almost did this by request because I love blue and couln't let this work go. I've seen more of his work, I even have one with me and he is amazing! I'm expecting great things from his future, including a collab with me!

A biblioteca acabou por ser encerrada. As falhas eléctricas tornaram-se frequentes com as luzes, a uninet e tudo a ir abaixo. Ninguém sabia o que se passava no terceiro nível, mas ninguém tinha tirado o cartão de leitor para aquilo. Foram dirigidos às portas com desculpas e que seriam recompensados. Apagaram as luzes atrás e trancaram as portas.

A IA divertia-se. Deixou a forma de Ding e Bat e projectou-se na imagem de um velho sábio, Merlin, de um daqueles filmes antigos animados. Ela era a única divertida naquela sala já que Gilass estava a apanhar a maior seca de todos os tempos e mais alguns. O que a memória? Há uma definição biológica, psicológica, filosófica e informática. A memória é uma capa arquivadora. Vamos guardando folhas com os dias da vida e a capa vai crescendo; podemos arrancar folhas e esquecer à força de um trauma; podemos colar aquelas argolas autocolantes para remendar as memórias e lembramos novamente. Temos separadores, post-its, micas a separar as memórias em categorias cada vez mais específicas: aniversários, amores, desgostos, sucessos, histórias, experiências, dor ou coisas mundanas como encontrar cinco créditos no chão ou virmos um cão na rua que tinha manchas castanhas no lombo e o dono era gordo até mais não. E chovia no dia.
As capas crescem a ritmos diferentes, variam consoante a pessoa e a sua predisposição de capas. Problemas mentais, educação, consumo de estupefacientes, todos afectam o estado capa.

E se houvesse um sítio onde alguém pudesse arrumar todas as capas? Mnemosine.
Mnemosineé a personificação da Memória na mitologia grega. Filha de Urano e Gaia; mãe das nove musas. Todas filhas de Zeus.
Por mais que o espaço se abra a uma pessoa, nunca deixamos de olhar para trás, mas agora também era necessário olhar em frente - para o universo longínquo, onde se escondia este planeta esquecido.  Nem Gilass nem a IA sabiam o que iam encontrar, mas a IA sabia que o planeta tinha sido descoberto e que andavam atrás da humana por alguma razão. Não podia ser só pela sua memória. Há pessoas com boas memórias, há pessoas com implantes de memória e autênticas pen drives. Tinha de haver uma razão para tal.
A Gilass era um prodígio informático, memoriza linhas de código, comandos e instruções como ninguém. Porquê? E se alguma coisa corre mal? E se, e se, e se. A IA também reparou. A humana estava sempre a ler as mesmas folhas da capa. Virava, passava a vista, virava. Ia ao fim, ia ao início. Suspirava. Bufava. E se não resultar? E se, e se.
A Gilass não era uma pessoa normal. Ela tinha ansiedade. Ela era daquelas que remoía tudo. Ela repassava memórias e acontecimentos. Ela tinha sempre planos A, B e C. Ela não era a reencarnação da deusa no universo, ela era apenas uma triste coitada que teve o azar de nascer com um cérebro defeituoso. E tudo fazia sentido.
A IA era tal como ela, mas em vez de materializar-se em desenhos animados, ela carregava capas enormes dentro sim. Ela lembrava-se de tudo.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

WRITOBER #24 - One Sucker Punch Man

Desconhecido

Momoa tinha voado sozinho até à Centaur, entrou no hangar e rapidamente estava na ponte. A tripulação recebera-o sem medo e desenrascada. Os escudos estavam no máximo, armas prontas e a ponte nos seus lugares.
Momoa aproximou-se da sua cadeira e acedeu ao terminal. Não havia mensagens - nenhuma das outras espaçonaves teria aberto uma linha de comunicação. Estavam só a olhar. Capitão primeiro, Embaixador segundo. Convidou-os a dialogar, primeiro a pirata Heracles, as duas espaçonaves mercenárias e depois a da OxyGen. Esta última só emitia estática para baralhar as comunicações.
E foram ignorados.
Momoa ainda estava com dores, a ligadura estava a encher-se de vermelho. Alguém reparou e sugeriu que o Capitão fosse à ala médica. A sugestão foi sacudida com uma mão e o Capitão levantou-se em frente.
Só preciso de os aguentar aqui um pouco. Pediu para desviarem a energia dos motores para as armas e activou-as. Estavam a carregar, os alvos estavam registados. Não seria o suficiente para os abater, mas para os enervar. Ele sabia que não iria sair dali e esse acto egoísta ia levar o resto da tripulação com ele. Oitenta por cento...
E a Heracles abriu fogo. O escudo absorveu o impacto. Outro e outro, mais um, dois, três. O escudo ia perdendo potência. Cem por cento e devolveram fogo. A Centaur obliterou o motor da Modern Love rebentou e começou a descair sobre a Space Oddity. O escudo da segunda aguentou o choque, mas um dos disparos da Centaur sobrecarregou o escudo. Sem protecção, a Modern Love razou a outra espaçonave. abrindo-a como um animal de caça.
A Nineteen Eighty Four continuava a observar e absorveu todos os impactos como se fossem nada, não reagiu quando as suas contraentes esbarravam embriagadas e deixaram de dar sinal. A Heracles mantinha-se em frente à adversária. Mesmo debaixo de fogo continuava a ripostar e uma das duas teria de ceder, infelizmente foi a Centaur. Várias razões: o primeiro disparo à sucker punch, ter dividido o fogo entre vários alvos e o escudo ter sobrecarregado imediatamente por isso mesmo.

O terminal do Capitão deu sinal e o líder da Heracles iniciou as comunicações: convidou-o a desistir e a abrir-lhe as portas. Momoa estava fraco, ordenou a todos para procurarem as cápsulas de emergência e aqueles que ficassem que se armassem.
Quando a Heracles chegou, a comitiva abriu caminho até à ponte. Os corredores estavam quase vazios, muitos tinham evacuado com a ordem e os restantes ainda resistiram, mas acabaram reunidos na ponte em frente a um Capitão encostado à cadeira. A fraqueza estava com ele, mas quando chegaram à ponte com os reféns, endireitou-se e avançou com a arma em riste. O Capitão da Heracles, Tieton, foi o primeiro a separar-se do grupo e pediu calma. Ambos afastaram-se, conversaram, tudo em segredo dos outros. Após algum tempo, Tieton afastou-se e deixou sentado num terminal. Ordenou a metade dos homens para vasculhar a Centaur e à outra metade para abater os reféns. O Capitão foi deixado para o fim que não assistiu porque estava de costas voltadas.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

WRITOBER #23 - The Gathering

Burning Games

"Os mercenários só servem para serem alugados. Não andam para aí a conspirar" bradou J'rrel, o Capitão da Medusa. "São piores que putas! Essas ainda escolhem com quem fodem e têm dignidade. Os mercenários fazem tudo por uns trocos, mas sempre com uma trela."
"Ele tem razão, Bonna" a Capitã Bronquea, da Minotaur, aproximou-se da pirata, da Centaur. "Por mais que nos custe admitir, fomos traídos por um dos nossos."
"Eu sei quem foi!" gritou o capitão da Athos, Gir, com um dedo apontado para um banco vazio. "Não está cá ninguém da Heracles!"
"Nem da Pegasus, da Catoblepas, da Perseus, da Theseus e outras, camarada" respondeu a Sherr, da Arachne, com calma na voz.
"Sim, mas tu sabes onde eles estão. Olha para o mapa. Onde está a Heracles?"
O mapa da galáxia tinha vários pontos azuis espalhados e cada ponto representava uma tripulação. Era necessário que todos os Capitães revelassem as suas posições se não conseguissem participar num encontro. Era um voto de confiança para com os restantes. Bonna inclinou-se sobre a mesa e confirmou a posição de cada um dos ausentes, menos da Heracles cujo último registo tinha sido duas colónias antes de ter abatido o Persimon.
"Na minha última paragem ouvi algo interessante, Bonna" falou um homem baixo, Antiole, da Chimera. "Um amigo d'um amigo, d´um amigo bebe num pardieiro no fim do mundo e lembra-se de ver três pessoas suspeitas numa mesa a falar."
"Todas as pessoas são suspeitas nessas tascas, pá!" gritou J'rrel. Antiole levantou a palma para o acalmar.
"No dia seguinte, o barman contou que encontrou um poema ao limpar a mesa. Aí tens o Persimon. Depois bate certo com a última posição da Heracles. Agora só precisamos de saber o porquê e onde se encontra. Ou vice-verse, o que vier primeiro."
"Sabemos um, sabemos o outro" concordou a Bonna. "O que ganhamos em trair o pessoal?"
"Dinheiro? Fama? Poder? O que o Persimon queria? Imortalidade?" lembrou-se Antiole.
"Não está tudo ligado?" Sherr encostou-se na cadeira com a sua bebida. "Ou as pessoas lembram-se de nós pelas nossas acções ou forçamos as pessoas a lembrarem-se nós. Podemos ser recordados pelo bem ou pelo mal. Dinheiro, fama, poder, arte, memórias, tudo meios para um fim."
"Então, posso contar com a vossa ajuda?" perguntou Bonna à sala.
"Que remédio temos nós, Bonna?" respondeu Antiole. "Quero lá saber da OxyGen para alguma coisa. Eles não podem fazer nada!"
"Mas a OxyGen paga a mercenários. Chama-lhes de segurança privada e isso já é legal. Mas mercenários a trabalhar com piratas? Perigoso" continuou Sherr. "A Heracles virá atrás de nós com mais mais força."
"Eles querem ficar na História da pirataria? Vou dar-lhes essa honra" também concordou J'rell com um punho na mesa.
"Obrigado, irmãos e irmãs. O Capitão agradece..." Bonna curvou-se perante os outros Capitães. Em parte sabia que alinhavam por Momoa, mas também por motivos pessoais: medo do que viria aí, mas disfarçavam com valentia. "Resta esperar que nos contactem..."

domingo, 22 de outubro de 2017

WRITOBER #22 - Just Read the Caption on the Image

Joana Raimundo

A última colaboração chega da Joana Raimundo. Colaborei e conheci a Joana na segunda edição da Lusitânia e fiquei fã desde então. Andamos a falar em fazer algo juntos há imenso tempo e, pois, foi agora! Se correr bem, talvez surja algo ainda maior! Espero que ela goste e vocês também! Visitem a página dela porque vão gostar. A última entrada será minha, prontos?

The last collab cames from Joana Raimundo. I've met Joana when we worked for Lusitânia and was a fan of hers since then. We've been talking about doing something together for a while et voilá! If all goes well, maybe we do something grand! I hope she likes this and you too! Go to her page because you'll enjoy her work. The last entry will be mine, ready?

A biblioteca tinha três níveis: o de livre acesso para as pessoas com cartão de leitor, estudantes e para quem quisesse ir ler e ter a experiência do shhh para não fazerem barulho; o segundo nível para investigadores, marrões e para os amantes da ciência forense que iam para lá ampliar jornais do arco da velha e o último nível que incluía os dois primeiros, ligava à uninet e a todas as bases de dados do universo conhecido e prestes a ser conhecido e tinha uma IA bastante prestável, e que tinha como ocupação ver desenhos animados antigos. Por essa razão, a sua projecção para quem visitasse o terceiro nível era a dupla Ding e Bat.
Ding e Bat materializaram-se à frente da comitiva Gilass, Bonna, Suzako, Merlot, Johanes e uma pequena escolta nada indiscreta que abriu caminho pelo edifício e suscitando muitos shhh.
"Hey, hey, hey, estávamos à tua espera desde que entraste" anunciou a IA quando quando todos se aproximaram. Não olhavam para ninguém em especial e para todos ao mesmo tempo.
"Gilass, certo? Esta pergunta é uma mera formalidade humana. Sabemos que és a Gilass e que vieste com companhia a mais. O resto pode sair, adeus."
O Rei e a Presidente já estavam habituados a esta rudeza artificial, portanto nem ligaram. O Rei deu meia volta, mas a Presidente encarou a mulher e despediu-se com as duas mãos nos ombros e olhos nos olhos. Invocaram a guarda e saíram. Bonna e Suzako ficaram para trás. Um beat distante saía dos auscultadores do piloto quando se aproximou para um abraço. Bonna apertou-a, segredou-lhe para ter cuidado, prestar atenção e voltar rápido. Gilass devolveu-lhe o mesmo, para ter sucesso e não morrer por aí. Pouco depois, os dois piratas deixaram-na sozinha.
"Hey, hey, hey, enfim sós, Gilass. O que queres de nós?"
"Eu não quero nada" respondeu a mulher.
"Nós podíamos dar-te o nada. Limpar-te a cabeça de tudo o que te aflige: o bom, o mau, e o assim-assim. Também podíamos encher-te a cabeça com todo o conhecimento do universo. Todos os segredos as fofocas mais básicas."
"O Capitão Momoa falou sobre descarregar memórias, memorizar e partilhar..."
"Um sítio onde todas as memórias vão parar?" interrompeu a IA.
"O que sabem disso?"
"Mnemosine. Oh sim, a ironia. Um sítio esquecido onde ficam as memórias. Foi encontrado. Sim. E tu estás em perigo, Gilass Milano. Esse não é o teu nome. Podemos chamar-te pelo teu verdadeiro nome?"
"Não" respondeu seca.
"Seja, Gilass Milano. Segue-nos. Há muito para aprenderes e para esqueceres."

Bonna e Suzako separaram-se da comitiva.
"Suzako, o irmão do Capitão disponibilizou tudo o que precisássemos para resgatá-lo. Aumenta o nosso número, pede armas e prepara-te."
"E tu, rapariga?"
"Vou descobrir quem o tem, quem conspirou com o Persimon e reunir todos os favores que devem ao Capitão."
Silêncio entre os dois. Um abraço e ela saltou para a naveta. Suzako voltou à comitiva e misturou-se com os guardas. Ambos voaram dali e desapareceram para continentes diferentes.

sábado, 21 de outubro de 2017

WRITOBER #21 - Are We There Yet?

Desconhecido

A naveta entrou na atmosfera e após o impacto da aproximação, desacelerou e desceu graciosamente sobre uma das capitais. Xilos era um planeta na sua grande parte aquático, muito azul visto do espaço e ainda mais azul ao aproximar. Havia dois continentes na linha do equador, onde o clima era quente, mas nunca incomodativo.
Porque só havia dois continentes, densamente habitados, nunca houve grandes guerras, apenas pequenos deterrentes pontuais que permitiram a ambas civilizações evoluírem de forma saudável.
Suzako enviou várias mensagens a avisar, mas o assunto urgente já corria a uninet: a Centaur já não existia. E quando aterraram, a escolta dos dois continentes esperava-os para levar à sala real, onde os dois líderes de cada continente os esperavam.
"Ninguém se atreve a assassinar um Embaixador!" exclamou Johanes.
"Tal acto seria respondido com guerra" terminou Merlot, mais calma.
O Rei Johanes, do continente de Zimbia, carregava mais a emoção do seu estatuto real, ao passo que a Presidente Merlot, do continente de Xontee, ponderava um bocadinho mais antes de falar. Não obstante ambos estavam correctos. Mercenários e piratas podiam fechar os olhos a algumas alíneas da lei, mas matar algum cargo político implicaria uma exterminação sem excepções. A OxyGen era uma empresa de renome do no universo habitável, tal acção acarretaria enormes consequências tanto a nível financeiro e legal. Portanto, sim, a Centaur não existia. A tripulação provavelmente tinha sido apagada deste plano existencial, mas o Capitão Momoa, também Embaixador daquele planeta Xilos estaria vivo, refém algures, mas vivo o suficiente para servir como moeda de troca.
E ali estava o que queriam: a mulher conhecida como Gilass Milano.
Johanes voltou a examinar Gilass de alto a baixo e fingiu uma tosse para misturar uns impropérios mais baixos em relação à mulher. Merlot aproximou-se com mais humanidade.
"São irmãos, perdoa-lhe a atitude, mas ele não te deseja mal" explicou a Presidente. O Rei grunhiu e voltou-se para a janela e para o brilho do mar, ao entardecer.
"O pedido do Embaixador Momoa foi um pedido estranho, mas será honrado. Amanhã bem cedo irás voar até à Biblioteca Central," Johanes virou-se apenas para a mulher e procurou-lhe os olhos. "Apenas tu, Gilass Milano."
Bonna e Suzako entreolharam-se. Merlot interveio.
"Vocês os dois têm mais do que fazer, não?" Tinham sim: arranjar voluntários e resgatar o Capitão, mas deixar a Gilass sozinha? Bonna juntou-se à companheira e puxou-a com um braço para si.
"Ela não ficará sozinha, garanto." Merlot adivinhou o que a pirata ia dizer. "O tempo é essencial aqui. Há muito que fazer na biblioteca, temos a maior das colónias, imensos registos físicos, digitais e virtuais para encontrar essa agulha no palheiro. E tu tens de tratar de alguns assuntos menos diplomáticos."
"Haverá um jantar logo. Agora terão alguma higiene, roupa e um quarto para descansar. Se me permitem." Johanes terminou o convite e marchou pela enorme porta. Merlot ficou a receber os empregados que entraram depois do Rei e transmitiu o convite aos três convidados.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

WRITOBER #20 - Out of The Frying Pan and Into the Fire

Mustafa Lamrani

Havia vermelho na mão do Capitão. Gilass prendeu a ligadura e voltou a descer-lhe a camisola. Bonna falava com Suzako.
"Capitão, temos de ir" Bonna regressou para junto de Momoa que olhava para o toldo da banca. Tinha outra bebida na mão que lhe fora oferecida. As pessoas estavam a regressar aos poucos ao mercado e muitas não faziam ideia do que tinha acontecido há pouco; para alguns era mais um dia em que tinha rebentado mais uma escaramuça. O corpo do Persimon foi arrastado por alguns populares, provavelmente ia ficar sem a roupa e sapatos e pertences que trazia consigo. Alguém tinha passado por eles com a túnica e o Capitão nem sequer os impedira. As duas mulheres não quiseram dizer nada.
Ele mantinha-se calado: bebida numa mão e vermelho na outra, lábios secos entreabertos e respiração lenta. Bonna voltou-se para a outra.
"Temos de ir já. Ajuda-me com ele."
O copo caiu e rolou pelo chão, espalhando o álcool. Grunhiu ao endireitar-se e atirou-se para a vida. Vestiu o casaco e passou por elas sem palavra, em direcção à naveta. Bonna apressou-se para acompanhar o passo e Gilass seguiu, ignorando os olhares da maré de pessoas que voltou a cobrir a rua.
Encontraram a naveta a ronronar e o piloto pronto a voar. O capitão entrou para trás e sentou-se à porta com o braço a barrar a subida das companheiras.
"Bonna, leva-a para Xilos. Leva-a à biblioteca."
"Han?"
"O que o gajo disse. Imortalidade. Descarregar, memorizar e partilhar."
"E então?" perguntou a pirata.
"Milano" voltou-se para a outra. "Ouves muito, vês muito. Não estás em lugar nenhum, mas estás em todo o lado. Sabes tudo. Assimilaste o teu trabalho e esta vida. Que mais?"
"Tenho boa memória. Só isso."
"Quando és pirata aprendes uma coisa ou outra quando andas por aí a voar e ouvi uns zunzuns de um sítio onde podes arrumar a cabeça...
"Que tipo de sítio?" perguntou Gilass.
"Não sei e nunca tive muito interesse. Bonna, Xilos, biblioteca. Suzako, pisga-te com elas."
"E tu?" Faltou-lhe a reverência a saltar para fora com os auscultadores e aparato musical atrás.
"Eu tenho de arrumar umas coisas também." Arrastou a porta para fechar e, acto continuo, a naveta levantou do chão e ascendeu. Os três afastaram-se à procura de outra plataforma.

"Centaur, aqui Momoa. Preparem-se para me receber."
Quando a naveta se aproximou, a Centaur estava frente a frente à espaçonave pirata Heracles. Atrás da Heracles estavam duas espaçonaves mercenárias, a Modern Love e a Space Oddity. Distante, o cruzador Nineteen Eighty Four observava.
A naveta abrandou e foi engolida pela Centaur. O silêncio do frio espacial infiltrou-se nas espaçonaves, congeladas no tempo. E depois... a Heracles abriu fogo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

WRITOBER #19 - Poetic Justice

Ricochet188

O rato estava no meio da multidão e dividiu-a em duas como um profeta a separar as águas. Estava coberto por uma túnica que não trazia há momentos e numa mão estava uma arma e, na outra, um dispositivo que não dava para ver o que era.
O Capitão e Gilass continuavam de costas.
"O que te prometeram, Persimon?" perguntou o Capitão entre goles. Bateu com o copo na mesa. "Dinheiro? Prazer? A tua tripulação?"
"Imortalidade" respondeu o poeta.
"Oh não, és um daqueles vilões!" Momoa soltou uma gargalhada com bafo ao álcool.
"Meu Capit-!"
"Não sou o teu Capitão nem porra nenhuma" cortou de imediato e enfrentou o traidor. A arma estava-lhe apontada. Riu novamente. "Continua, declama que sei que gostas... mas em rima, por favor."
Persimon não vacilou e pigarreou para dar a partida.
"Quando morreres, as pessoas vão ler sobre o Capitão Momoa. A história, a lenda, os factos, os feitos. E nós? Bonna, Suzako e os outros? Morremos à margem da lei, uma nota de rodapé do grande Capitão Momoa. E o nosso trabalho? Quem vai ler poesia de um pirata entesado? Ouvir a música de um mocado? Admirar as esculturas do Ibrahim, os quadros do Klaus. Tudo queimado e esquecido..."
O Capitão mostra o revolver nas calmas e assenta-o ao colo.
"E eles dão-te essa imortalidade?" Suspirou como, se de alguma maneira, reconhecesse a razão do lado do antigo camarada.
"Não quero ser recordado apenas como um pirata, mas como um homem das letras. Quero que a minha obra viva para sempre. Eles vão descarregar, memorizar, partilhar. Viverei para sempre na memória do universo." O capitão acariciou o punho da arma.
"E para isso preciso da Milano. Desculpa..."
"O que é isso na tua mão?" Momoa levantou a arma e esticou-a na direcção do homem. Este testemunhou tudo, permitiu o gesto e consentiu. Agora ambos tinham uma arma em cada direcção.
"É o meu plano B." Prime o botão no aparelho e leva-o à boca. Os lábios movem-se mudos e em câmara lenta.
Gilass também tinha a arma dela a levantar-se para Persimon.
O mercado era o olho do tornado. Calado, congelado naquele momento e nas paredes as pessoas afastavam-se e atiravam palavrões e ordens de comando para o ar.
Duas armas apontadas a uma.
"Anda, Milano." "Fica, Milano!"
E o staccato dos disparos ecoa pelo mercado e pelas artérias. Há quem se atire ao chão e começa a guinchar.
Gilass deixa a arma tombar no indicador. O Capitão cambaleia para o banco e senta-se. Persimon tomba para a frente.
Gilass caminha até ao corpo. Tinha uma entrada nas costas, pelo pulmão. Vira-o com a ponta da bota para o céu. Persimon, o poeta, abocanhava o ar como um peixe roubado à água, mas encarou a mulher e chorou como se visse a musa.

Fi-lo por ti.
A liberdade na palma, a criatividade na alma.
Escrevia, corria, e cada dia morri...

Voltou a morder o nada, a mastigar ar e a tossir espuma encarnada.

Pior do que morrer?
Viver sem amar, dormir sem sonhar.
Musa, pior do que morrer é esquecer.
Pior do que morrer é esquecer...

Gilass fechou-lhe os olhos e voltou ao Capitão.
Capitão, estamos a detectar aproximações de todas as direcções...
O Capitão sentado ergueu o braço e o dedo ao ouvido, "Identificação?"
Ainda não.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

WRITOBER #18 - Every Breath You Take

Desconhecido


"Já sabem. Uma hora: entrar, sair, não dar nas vistas. Suzako, ficas a aquecer o banco. Persimon, sobes e ficas à coca. Milano, caminhas comigo. Bonna, vinte passos atrás - faz a tua cena."
A cena dela era desaparecer e ser um fantasma. Ela era das poucas que sabia o que ia acontecer; ela, o Capitão e o traidor - só não sabia quem era.
Ela entrou para a Centaur com Suzako. Conheciam-se há imenso tempo. Era péssimo em confrontos, mas um ás a voar. Nunca descia ao terreno, ficava na cabina a fazer o que passava por música electrónica. Bonna ouvia-o pelo comunicador e respirava de alívio, iria partir-lhe o coração se tivesse de partir a cabeça do amigo com uma bala. Persimon entrara antes deles. Era o poeta, o mais velho e experiente. Leal ao Capitão e à causa, mas a sua arte tinha sempre um duplo significado. O comunicador emitia estática e isso não a agradava. O Capitão Momoa, Embaixador de Xilos, mais rápido enfiava um revolver na boca do que trair a tripulação. Sobrava a novata que estava com ele a fazer de isco.
Bonna Fide, o ofício dela era peculiar. Ela observava, conhecia as pessoas, ouvia-as e falava as coisas certas. Se ela não gostasse de alguém logo de início, o Capitão ponderava duas vezes em ter a pessoa na Centaur. Suzako e Persimon estavam na corda bamba. Um odiava combater e fazia de tudo para o evitar e o outro já estava farto daquilo tudo. Entrou numa loja, atirou umas fichas ao lojista e entrou para as traseiras. Subiu um andar, dois andares, três. Entrou numa casa aberta e caminhou até à varanda. Apanhou a caixa e abriu uma nesga para voltar a fechar. Atirou-a para a varanda da frente. Saltou atrás. Entrou pela janela para uma casa abandonada e voltou às escadas onde subiu mais cinco andares, onde chegou ao terraço com uma espectacular e vasta vista do mercado.
Consultou a equipa: música eléctrónica, estática, ...ou finge tanto me faz...estática. 
"Merda!"
Apoiou-se no joelho e voltou à caixa. Abriu-a. Tirou duas partes de uma espingarda. Enfiou a secção comprida na base e rodou até clicar. Montou a mira e ajustou. Depois enfiou a caixa de munição por baixo. Baixou a base da espingarda e apoiou no muro do terraço.
Música electrónica, ratos, milano. Estática. Respirou fundo e encontrou os três na mesma área. O Capitão encostado à Gilass e um espectro coberto a nadar na multidão.
Tirou a segurança, encostou o indicador ao gatilho e susteve a respiração.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

WRITOBER #17 - Quiet, We're Hunting Rats

Lorenz Hideyoshi Ruwwe


Seis meses passaram desde que Gilass se tinha demitido.
Acordou às cinco de uma manhã digital e sentou-se na ponta do beliche. Estava escuro em todo o lado: na camarata, nos corredores, lá fora em qualquer direcção no espaço. Não havia noção de dia e de noite, apenas um sistema horário que fazia menos sentido quanto mais longe estivessem da Terra.
Alongou os braços um de cada vez, o pescoço e estalou. Enfiou as calças, uma perna de cada vez. As botas, um pé de cada vez. Vestiu a camisa azul que meteu metade nas calças e o resto de fora. O revólver na mesa de cabeceira voltou ao coldre na cintura.
Antes de sair recuperou o casaco de cabedal castanho e parou no espelho. Esfregou os dedos pelo cabelo curto com restos de cera para o ajeitar. Bonna já a esperava lá fora, caminharam as duas em conversa rotineira e desceram até ao hangar. Momoa também lá estava sentado na naveta meio a dormir, meio a meditar. O Capitão abusava disso para passar um ar de superioridade contemplativa. Persimon estava com ele e deu-lhe um murro no braço quando as viu chegar. Suzako entrou na cabina e começou a preparar para sair.
Embarcaram e abandonaram a Centaur. Saltaram e navegaram até à colónia mais próxima. Suzako, o piloto, iniciou o protocolo de autorização para se aproximar. O capitão começou:
"Já sabem. Uma hora: entrar, sair, não dar nas vistas. Suzako, ficas a aquecer o banco. Persimon, sobes e ficas à coca. Milano, caminhas comigo. Bonna, vinte passos atrás - faz a tua cena."
Saltaram para a plataforma e desapareceram nas suas posições. Momoa liderou Gilass pelo mercado até se tornaram homogéneos com os locais. Às tantas, o conhecido deixou de fazer sentido e sentiu-se perdida, novamente pequena num novo mundo. Pessoas de vários tamanhos e feitios passavam por ela, uns deitavam olhares e outros atiravam frases em dialectos estranhos que o tradutor convertia com lag. Um braço tatuado puxou-a para um banco e fê-la sentar-se. Momoa tinha a mesma cara de frete. Odiava desperdiçar tempo e aquilo era mais do mesmo. Levantou dois dedos e dois copos fumegantes foram servidos.
"Bebe." Ponderou... "Ou finge. Tanto me faz."
"O que estamos a fazer?"
"A caçar." Levou o copo à boca. A mulher reparou nos olhos duros do capitão. Havia um misto de tristeza e raiva naquele tremer rápido que assistiu. Também muito atentos ao mundo. Baixou a cabeça e agarrou na bebida. No reflexo do copo, continuou a ver a multidão a escorrer. O Capitão espreguiçou-se e levou a palma ao ouvido e fingiu confidenciar à parceira do lado: Então?... Boa... Não, vamos esperar...
"O que estamos a caçar?"
"Ratos, Milano. Não mexas na arma e porta-te bem."
Seis meses passaram desde que Gilass tinha embarcado na Centaur. E todos os dias havia um teste novo.
Acordou às cinco de uma manhã digital; estava sentada a beber um copo no que passava por um meio-dia artificial e agora caçava ratos. Atrás dela a corrente de pessoas alterou.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

WRITOBER #16 - Dark Words, Dark Deeds

Damnagy

Num lugar longínquo, a roçar os términos da expansão humana, havia um sítio onde os colonos se reuniam depois do trabalho. Um bar. Depois havia aquele local escondido das pessoas e autoridades onde apenas quem queria ir sabia onde ficava. Um outro tipo de bar. Havia bebida a ser servida, música a ser tocada e fumo a ser expirado, nada diferente de um bar ou tasca registada, mas o tipo de pessoas que o frequentava deixava a desejar.
Uma figura encapuçada enfia-se numa das ruas laterais e desaparece da multidão, desce uns degraus húmidos e dá dois toques com as costas da mão. Uma brecha abre com um olho vivo. Trocam palavras num dialecto incompreensível e a brecha fecha-se. A porta range e arrasta-se para dentro.
O encapuçado entra e vai directo para uma mesa do canto onde tenta não dar nas vistas e falha miseravelmente. Uma mulher, dois homens, possivelmente mercenários repararam na aparição e seguiram-no com o olhar. Um deles pediu mais uma bebida e quando foi servido, descolou-se do bar e caminhou para o canto. Os outros mercenários seguiram-no. Sentaram-se nos lugares vazios e passaram a bebida ao homem coberto. Houve um sorriso.
"Vamos falar. Depois bebemos." E como se partilhassem o segredo mais importante do universo, chegaram-se à frente, quase encostando as cabeças. Ninguém conseguia ouvir a conversa, e ninguém tentava. Metiam-se nas suas vidas e já era bom.
Um casal acabou a bebida e ela pediu mais do mesmo. Quando recebeu o pedido, cotovelou o parceiro para tomar atenção.
"Piratas" comentou. "Não são da mesma tripulação. Estão ali três grupos diferentes." Levou o copo metálico aos lábios.
"O que tem?" Interveio a parceira.
"Os piratas não se juntam, Katinya." O barman passou por eles com um pano na mão a esfregar o balcão em movimentos circulares. Ele mesmo a tentar ouvir a conversa. "Está prestes a acontecer alguma coisa..."
O casal bebeu à vez, em silêncio, e não voltaram a olhar para a mesa do canto. De vez em quando surgia uma gargalhada da nuvem de tabaco do grupo, mas rapidamente era abafada. O casal acabou por se ir embora. E, um a um, a mesa do campo ficou vazia. O desconhecido foi o último a sair e deixou alguns créditos no balcão limpo. Saiu para a noite como um espírito que tinha vindo assombrar.
A primeira coisa que o barman fez quando se viu sozinho foi dirigir-se à mesa do canto. Pegou nos copos, no cinzeiro cheio e ajeitou tudo no tabuleiro. Quando se preparava para regressar, reparou num papel marcado por um copo húmido. Alcançou-o e levou-o à luz para ver o que estava escrito. Um poema. Amachucou a folha e lixo com ela.
Quem deixa poemas espalhados por aí?

In a remote location, almost beyond the limits of human expansion there was a place where colonists would gather after a day's work. A pub. There was also that obscure place, hidden from other people and authorities, where only the people who knew and wanted to go knew about. A speakeasy. Booze was served, music was played and smoke was exhaled. Nothing out of the ordinary and different from a legal and regular pub. The patrons left much to be desired though.
A cloaked person dives into a side street and mingles with the crowd, goes down a few steps and knocks twice with the back of his hand. A slit opens with a living eye looking out. Words are exchanged in a unknown dialect. The slit closes. The door creaks and drags inside. The hooded man enters and goes straight to a corner table. He tries to go unnoticed but fails miserably. A woman, and two men, maybe mercenaries, took notice and followed him with their eyes. One asked for another drink and when it arrived he took it to the hooded figure. The other mercenaries followed him. He took the drink and he smiled.
"Let's talk. Drinks later." And as if they shared the most important secret of the universe, they all leaned forward, bumping heads. No one could hear the exchange and no one was trying. Everyone was minding their own business and that was enough.
A couple finished their drinks, but the lady asked for more of the same. She elbowed her partner, new drink in hand, to summon his attention.
"Pirates" he told her. "And not from the same crew. I recognize three different groups." He took her metallic cup to his lips.
"What of it?" She commented.
"Pirates never join, Katinya." The barman walked near with a cloth in hand, scrubbing the counter with circular movements. He was trying to listening on them. "Something's coming..."
The couple finished her drink, now in silence and avoided the corner table. Once in a while, a cackle erupted from the cloud of smoke that had erupted from the group. And it was hushed immediately. The couple left soon after. The table was abandoned one by one. The unknown man was the last to leave, left some credits on the spotless counter and sneaked into the night, like a phantom on a haunting.
A first thing the barman did when he was alone was to walk to the that table. Took the cups, the full ashtray and tucked everything in the tray. When he was about to leave he took notice on a small paper, circled by a wet cup. Reached for it and took it to the light to see what was written on it. A poem. He crumbled the paper and threw it away.
Who the hell leaves poems laying around?

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